“Responder a Todos”: a pandemia silenciosa da era digital

 


Responder a todos

Três palavras que me tiram do sério.
Um botãozinho que vira caos.

O atentado diário à caixa de entrada
Abro o e-mail.
Vejo quinze mensagens iguais.
O mesmo texto.
A mesma cadeia, repetida até à náusea.
Alguém pergunta: "A reunião é amanhã?".
Responde o chefe: "Sim, 10h".
E vinte colegas gritam em coro: "Sim, 10h!".
Todos para todos.
Ninguém lê.
Ninguém pára.
A caixa entope. O dia pára. A pachorra esgota-se.

Heróis do CC descontrolado
Estamos perante os campeões do copy-paste.
Do "vou só confirmar" porque "assim ninguém se perde".
Perdem-se eles próprios.
E levam-nos a todos.
Literacia digital? Zero.
É o faroeste informático.
No trabalho, na escola, na coletividade.
Um e-mail sobre horários.
Vai para pais, professores, secretárias, sócios.
E volta multiplicado por dez.
É um desespero cómico.
Só me apetece gritar: pelo amor da Santa, parem, leiam primeiro!

A tragédia da tecla fácil
É a preguiça disfarçada de eficiência.
Ou atrofia cerebral com medalha.
Ou, se calhar, as duas coisas.
Falta um bocadinho assim de noção.
"Responder" existe. Mas não é "a todos", porra. Repito, mas não é a todos!
Por segurança.
Por costume.
Por falta de neurónios.
Resultado?
Notificações non-stop.
Tempo perdido a apagar.
Foco destruído.
Paciência no chão.

O roçar do desespero satírico
Imaginem o circo.
Um qualquer palhaço clica "responder a todos".
O público aplaude com spam.
E o e-mail vira uma novela: cinquenta episódios iguais.
Na escola, pais a confirmar o que já sabem.
Professores a repetir o óbvio.
Diretores a mandar para o universo ou a rogar à espiritualidade que resolva. Está na moda.
Não há formação.
Não há vergonha.
Só caixas de entrada a rebentar.

Acorda, responde direito
Acordem, basta de circo digital.
Treinem o botão certo, pá!
Pensem antes de clicar.
Ou fiquem na pré-história. Talvez seja melhor para todos.
A caixa agradece.
Eu agradeço.
O mundo agradece.
E o podcast também.
Sem mais spam.

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