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Imagem Freepik
Manual de sobrevivência para resignados profissionais
Há expressões que não constam da Constituição, não aparecem em decreto algum, não são citadas em conferências de imprensa, mas governam o país com mais eficácia do que qualquer ministro. Entre todas, há uma que domina o território nacional com a placidez de um imperador resignado. A frase é simples, curta, letal. Soa a destino inevitável. “É assim mesmo.”Diz-se com um encolher de ombros que já não tenta esconder o cansaço. Murmura-se com a serenidade artificial de quem desistiu há muito, mas ainda quer parecer sábio. Surge em qualquer lugar: num serviço público, numa empresa privada, numa reunião em que a incompetência ganha estatuto de normalidade. O cenário repete-se sem grande inovação. Espera-se quarenta minutos. Ninguém informa. Ninguém explica. Ninguém pede desculpa. A resposta oficial, sempre impecável na sua inutilidade, chega com pontualidade britânica: “É assim mesmo.”
O mesmo se aplica à estrada esburacada há uma década, às promessas que só existem na fotografia da inauguração que nunca aconteceu, às obras anunciadas como se fossem milagres de Fátima. Nada acontece, salvo o suspiro conformado da resposta técnica especializada: “É assim mesmo.”
E quando surge a decisão absurda, a injustiça evidente, a regra que desafia a lógica elementar, resta sempre a versão filosófica, aquela que encerra qualquer possibilidade de debate: “É assim mesmo.”
A genialidade desta frase é perversa. Não explica. Não resolve. Não melhora. Mas mata conversas com a precisão de um bisturi cego. É uma frase que sufoca perguntas e enterra expectativas. Funciona como Lexotanil da participação cívica, um sedativo que adormece vontades e domestica revoltas.
Hannah Arendt descreveu a banalidade do mal. Não o mal dos monstros, mas o mal dos normais, dos obedientes, dos que preferem não pensar, dos que aceitam porque aceitar dá menos trabalho do que questionar. O mal instala-se assim, devagar, educadamente, sem alarme. Primeiro estranhamos. Depois toleramos. Mais tarde aceitamos. Um dia defendemos.
E então, sem darmos por isso, somos nós a repetir a frase com a autoridade dos convertidos. “É assim mesmo.” Nesse instante a metamorfose está concluída. Já não somos vítimas, somos colaboradores. O maior triunfo do absurdo não é conseguir impor-se, é ser aceite. Sem resistência, sem indignação, sem sequer um levantar de sobrancelha.
E é assim mesmo que tudo continua.
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