A Língua Portuguesa: entre a eternidade e o esquecimento

Hoje, é o Dia Mundial da Língua Portuguesa

Um património vivo, não um ornamento

Há línguas que se falam. E há línguas que nos falam. O português pertence, sem hesitação, à segunda categoria. Não é apenas instrumento, é herança, é território íntimo, é casa onde cabem séculos de história, de dor e de beleza. De Camões a Mia Couto, de Pessoa a Ondjaki, o português foi sempre mais do que som, foi identidade em construção.

Celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa não deve ser um exercício protocolar, nem uma efeméride de calendário. É, antes, um convite à consciência. Falamos uma das línguas mais difundidas do mundo, com mais de 260 milhões de falantes. Uma língua pluricontinental, mestiça, resiliente. Uma língua que sobreviveu a impérios e reinventou-se em cada geografia.

Entre a riqueza e o risco

Mas não nos iludamos: a vitalidade de uma língua não se mede apenas pelo número de falantes. Mede-se pela qualidade do seu uso, pela sua presença na ciência, na tecnologia, na cultura digital. E é aqui que o português enfrenta desafios sérios.

Num mundo dominado pelo inglês, a pressão para simplificar, adaptar e, por vezes, descaracterizar o português é constante. A linguagem das redes sociais, rápida e muitas vezes descuidada, ameaça a precisão e a riqueza lexical. A escola, por sua vez, luta entre programas extensos e uma realidade onde ler e escrever com profundidade se torna cada vez mais raro.

Mais inquietante ainda é a desigualdade no acesso à língua de qualidade. Nem todos têm as mesmas oportunidades para dominar o português em toda a sua complexidade. E isso, sendo uma questão linguística, é também uma questão social.

Cuidar da língua, cuidar de nós

Defender a língua portuguesa não é um gesto conservador, é um ato de responsabilidade cultural. Não se trata de cristalizar a língua num museu, mas de a fazer crescer com rigor, criatividade e consciência.

Cabe à Escola, aos media, aos escritores, aos criadores de conteúdos, e a cada um de nós, cuidar deste património comum. Escrever bem não é elitismo, é respeito. Ler não é luxo, é necessidade. Pensar na língua é pensar no mundo.

Porque, no fim, a língua que falamos é a língua que nos define. E perder o cuidado com ela é perder, aos poucos, a clareza do pensamento e a densidade da identidade.

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