A morte lenta da Responsabilidade

 

Imagem Freepik

A era dourada da culpa alheia

Vivemos tempos estranhos. Tempos dourados, ao que parece, para a inocência universal. Nunca ninguém tem culpa de nada, nunca foi ninguém, nunca é ninguém, nunca será ninguém. A culpa é sempre uma entidade externa, difusa, vaporosa. O sistema, as circunstâncias, o contexto, a infância, o clima, o alinhamento dos planetas, a eventual perturbação gravitacional de Júpiter. Tudo serve, menos a pessoa.

Um aluno não estuda, a culpa é do professor. Um filho revela uma educação sofrível, a culpa é da escola. Um cidadão ignora regras básicas, a culpa é do Estado. Um adulto falha de forma evidente, a culpa é do universo que não colaborou. E assim seguimos, rodeados de vítimas impecavelmente inocentes de si próprias. O fenómeno é quase fascinante, não pelo brilho, mas pela criatividade.

Errar tornou‑se um direito fundamental. Assumir tornou‑se uma raridade zoológica. Pedir desculpa é encarado como fraqueza. Assumir responsabilidade, isso então, já roça o extremismo. É um ato quase revolucionário.

Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, lembrou-nos uma verdade que se tornou inconveniente. Escreveu que a última liberdade humana consiste em escolher a atitude perante as circunstâncias. Repare-se nesta formulação. A última liberdade. Podem tirar-nos tudo, menos isso. Hoje, fazemos o contrário, entregamos essa liberdade de forma voluntária, com o conforto submisso de quem prefere o alívio imediato à maturidade.

Se não é culpa minha, não preciso de mudar. Se não preciso de mudar, não preciso de crescer. Se não preciso de crescer, posso manter-me fiel ao meu estado original, protegido pela almofada fofinha da irresponsabilidade. É uma estratégia brilhante, sem dúvida, para permanecer pequeno.

Uma sociedade que dispensa a responsabilidade individual tenta, sem perceber, hipotecar a sua própria dignidade. Porque a responsabilidade é o preço da liberdade. E nós, com uma elegância notável, andamos ocupados a pedir o reembolso.

Comentários