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Foto de Ivan Aleksic
Nada contra autores. Nada contra quem cria e quer divulgar o seu trabalho. A cultura precisa de palco. O problema começa quando o palco é a escola pública e a plateia é composta por alunos em horário letivo.
Porque aqui reside o ponto essencial.
Quando a apresentação de uma obra privada ocorre dentro da organização escolar, com mobilização de turmas e envolvimento de docentes, deixa de ser apenas cultura. Passa a ser promoção com chancela institucional. E essa chancela pesa.
A linha é ténue, mas alguém tem de a traçar
Os alunos não estão ali como consumidores livres. Estão porque a Escola organizou. Os professores não acompanham como espectadores neutros. Acompanham porque faz parte do plano definido. No fim, surge o pedido logístico: recolher números, recolher dinheiro, distribuir livros.E o professor, que deveria estar a ensinar, passa a desempenhar funções de intermediação comercial.
Mas a responsabilidade não se esgota na Escola.
Há também os municípios. São eles que programam, que escolhem, que convidam, que cedem auditórios e teatros municipais. E aqui impõe-se uma pergunta simples, quase ingénua: por que razão esta obra e não outra? Por que este autor e não tantos outros? Com que critérios? Com que transparência?
Os equipamentos culturais municipais são mantidos com o dinheiro de todos. Luz, manutenção, pessoal técnico, limpeza, programação, tudo pago pelos contribuintes. Não são salas privadas. São espaços públicos. Devem servir o pluralismo cultural, não funcionar como plataforma preferencial de promoção para projetos específicos.
Quando um município decide apoiar a apresentação de uma obra privada perante um público escolar organizado, está a conceder algo valioso: legitimidade institucional e acesso facilitado a um mercado garantido. E isso exige escrutínio.
Não se trata de hostilizar a cultura. Trata-se de defender regras claras.
Se há programação cultural dirigida às escolas, que seja enquadrada como serviço público, com critérios objetivos, diversidade de autores, eventual aquisição prévia de exemplares para bibliotecas, e sem transformação implícita do momento cultural em oportunidade de venda.
Caso contrário, cria-se uma zona cinzenta onde o poder público seleciona, promove e disponibiliza infraestruturas coletivas para iniciativas de natureza comercial. E fá-lo com público cativo.
Há ainda o impacto invisível: menos tempo de aula. Menos continuidade pedagógica. Mais eventos, menos profundidade. Substitui-se o trabalho persistente pelo momento fotogénico. E a fotografia, essa, circula bem nas redes institucionais.
A Escola deve abrir-se à cultura, sem dúvida. Deve receber escritores, músicos, cientistas. Deve proporcionar contacto direto com quem cria. Mas precisa de fronteiras claras.
Primeiro, distinção inequívoca entre atividade pedagógica e ação promocional.
Segundo, liberdade real de participação, sem pressão implícita para adquirir produtos.
Terceiro, separação de papéis. O docente ensina, orienta, media. Não vende. Não cobra. Não distribui.
E quarto, responsabilidade política. O espaço público não é montra seletiva. É património comum.
Educar para a cidadania também é isto. Ensinar que o dinheiro público exige transparência. Que o pluralismo cultural não se proclama, pratica-se. Que a Escola não é figurante em estratégias comerciais, nem os equipamentos municipais são salas de exposição a pedido.
Cultura, sempre. Favorecimento implícito, não.
Porque formar leitores críticos é muito mais exigente do que formar compradores ocasionais. E a democracia começa nos detalhes que muitos preferem não discutir.
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