O absurdo sagrado: a teimosia de uma esperança sem lógica

Há frases que não se dizem; acontecem. Diz-se, por vezes, que mesmo sendo absurda, toda a esperança é sagrada. Fico nela, como quem se demora à porta de casa, nesse limiar incerto entre o entrar e o já ter saído. Sejamos honestos: há dias em que a esperança parece uma piada de mau gosto, algo quase ofensivo na sua ingenuidade. São os dias em que o mundo encolhe, em que a sala de aula pesa e os miúdos testam os limites da nossa paciência. Dias em que o país promete muito e entrega quase nada.

Ainda assim, há qualquer coisa que se recusa a morrer. É uma espécie de teimosia, uma chama pequena e ridícula, mas viva. A esperança não se encontra nos cartazes eleitorais ou nos postais de motivação barata. Ela é sagrada precisamente por ser absurda. Ela resiste quando tudo à volta desiste, sem precisar de lógica ou de aplausos.

Talvez o que nos defina não seja o sucesso, mas aquilo a que nos recusamos renunciar. É o ato de aparecer quando ninguém espera, de continuar a escrever, a falar e a denunciar, mesmo com o cansaço a pesar-nos ombros. A esperança mora nos pequenos desvios, no aluno que subitamente percebe ou no leitor que decide ficar. Quando acreditar deixa de ser confortável, passa a ser uma escolha. Um ato de rebeldia que recusa o mundo tal como ele é para projetar o futuro que ousemos imaginar.

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