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Imagem retirada daqui
O último lugar onde ainda podemos encontrar-nos
Há coisas que desaparecem devagar. Não fazem barulho, não protestam, não resistem. Desaparecem como quem se retira discretamente de uma sala, convictas de que já não são bem-vindas. O silêncio é uma delas.Houve um tempo em que o silêncio era normal. Hoje, é suspeito. Entramos no carro, ligamos o rádio. Entramos em casa, ligamos a televisão. Esperamos numa fila, pegamos no telemóvel. Preenchemos compulsivamente todos os espaços, como se o silêncio fosse um animal perigoso à espreita.
E, para ser justo, é. O silêncio não distrai, não entretém, não mente. Revela.
Blaise Pascal escreveu que toda a infelicidade humana nasce da incapacidade de estar sozinho num quarto. A frase é brutal, não por exagero, mas por precisão. O silêncio é o lugar onde nos encontramos sem máscaras, sem barulho, sem fugas possíveis. Mostra-nos o que evitamos, o que adiamos, o que tememos.
No silêncio não há aplausos. Não há validação. Não há anestesia. Há apenas verdade. E a verdade, sendo luminosa, também queima. É desconfortável. Mas continua a ser o único ponto de partida possível.
É no silêncio que nascem as perguntas sérias. E nas perguntas sérias nascem vidas autênticas. Talvez seja por isso que fugimos dele com tanta dedicação. O silêncio não nos diz o que queremos ouvir. Diz-nos o que precisamos de ouvir. E isso exige coragem.
Coragem para parar. Coragem para escutar. Coragem para existir sem distrações, sem fugas, sem desculpas. O silêncio não desapareceu apenas do mundo exterior. Está a desaparecer dentro de nós. E talvez seja tempo de o procurar outra vez, antes que nos percamos definitivamente do que somos.
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