O Tempo que nos falta porque nos perdemos de nós

 

Falamos muito de tempo, mas vivemos como se ele fosse um recurso inesgotável que alguém nos há de devolver. Há relógios por todo o lado, mas tempo verdadeiro, esse que tem chão e presença, parece sempre ausente. A nossa vida é uma sucessão de agendas que não vivem por nós. Corremos demasiado, chegamos pouco, fazemos tudo e, paradoxalmente, falta-nos sempre o essencial. E o essencial é simples: estar, ouvir, respirar, cuidar. O tempo não se ganha, cuida-se. Não se acumula, escolhe-se. Não se domina, defende-se. A prioridade não está na multiplicação de tarefas, mas na capacidade de dizer sim ao que nos dá sentido e não ao ruído que nos rouba o norte. Não é egoísmo. É direção.

Vivemos tão presos ao urgente, que grita, que esquecemos o importante, que fala baixo e exige escuta demorada. Medimos passos com rigor digital, mas esquecemos de medir abraços. Contamos tarefas, mas perdemos conversas. E, no entanto, bastam pequenos gestos para recentrar o dia: um telefonema para a mãe, duas páginas de leitura, olhar o céu sem medo de perder tempo, sentar no chão com uma criança, agradecer com olhos nos olhos. Um minuto inteiro pode ser muito, se estivermos presentes.

No meu bairro de Campinho, aprendi que o tempo tem terra nos pés. Quem corre sem olhar acaba por cair. Quem segue com passo certo chega, e chega inteiro. Criar margens, reservar silêncios, proteger manhãs sem ecrãs, desligar notificações e atender pessoas antes de atender máquinas são atos de humanidade que nos devolvem para dentro de nós.

A pergunta final é simples. O que conta hoje? E, sobretudo, o que está disposto a escolher, com presença, antes que o dia o escolha a si?

Comentários