Poder local: cinquenta anos depois, ainda no recreio

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Celebram-se cinquenta anos de poder local. Discursos solenes, medalhas, fotografias bem iluminadas. A promessa original era nobre: proximidade, participação, transparência. Meio século depois, em demasiados casos, a proximidade confunde-se com pose para a fotografia e a participação reduz se a comentários nas redes sociais.

A democracia começou a sério nas autarquias, diz-se. Talvez. Mas há câmaras que nunca saíram da inauguração permanente. O boletim municipal brilha em papel couché, as redes sociais fervilham, os vídeos multiplicam-se. E o contraditório continua a ser visto como falta de educação. A crítica, como ataque pessoal.

A verdadeira proximidade não se mede em likes. Mede-se na capacidade de decidir contra clientelas instaladas. Mede-se na coragem de dizer não quando o interesse público o exige. Mede-se na disponibilidade para ouvir quem não está na primeira fila das sessões solenes, mas na fila do centro de saúde, na paragem do autocarro, na escola que perde professores.

Há assembleias municipais que parecem recreios. Grupinhos, recados, intrigas. Debate estrutural, pouco. Perguntas incómodas, raras. E, no entanto, a democracia vive disso mesmo, do confronto de ideias, da fiscalização, da exigência. Um mandato não é um troféu, é um contrato. Temporário. Revogável pelo voto.

Também os cidadãos têm responsabilidades. Indignar-se no café ou no Facebook é confortável. Participar, questionar, exigir transparência, já dá trabalho. Mas sem essa exigência continuaremos a confundir gestão com propaganda e proximidade com omnipresença fotográfica.

Cinquenta anos são idade suficiente para atingir a maturidade. O poder local será adulto quando aceitar o contraditório sem dramatizações, quando preferir decisões sólidas a imagens vistosas, quando perceber que um cidadão incómodo é, muitas vezes, o melhor aliado da democracia.

O espaço público não é expositor, nem cenário. É responsabilidade partilhada. E essa, ao contrário das estações do ano, não muda sozinha.

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