Berços de ouro também podem ser jaulas

Izis Bidermanas | L’uomo con le bolle, Pet­ti­coat Lane, Midd­le­sex Street, Whi­te­cha­pel, 1952 ca.
«Uma pessoa pode ter uma infância triste e mesmo assim chegar a ser muito feliz na maturidade. Da mesma forma, pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida.»
Charles Chaplin

Uma pessoa sopra bolhas de sabão no meio da rua. O gesto é simples, quase infantil, mas não é ingénuo. Bolhas são frágeis, efémeras, belas sem pretensão de durar. Não têm pedigree nem herança. Existem porque alguém decidiu soprar.

Charles Chaplin conhecia bem esta gramática da vida. A infância dura, a fome, a exclusão, o riso como mecanismo de sobrevivência. Daí a clareza da sua afirmação: uma infância triste não determina um fim infeliz; um berço de ouro não garante liberdade interior. O determinismo é uma mentira confortável para quem desistiu de escolher.

A imagem não glorifica a pobreza nem demoniza a riqueza. Coloca-nos perante algo mais inquietante: a ambivalência da existência. A felicidade não nasce do contexto, nasce da relação que construímos com ele. Há quem cresça em privação e desenvolva uma extraordinária capacidade de gratidão. Há quem cresça em abundância e viva acorrentado a expectativas alheias, a destinos desenhados por outros.

Educar, afinal, é ajudar a soprar bolhas. Não no sentido da fantasia inconsequente, mas na coragem de experimentar, de errar, de aceitar a fugacidade. A educação que promete garantias mente. A vida não garante nada. Apenas oferece possibilidades.

O grande equívoco social é confundir proteção com aprisionamento. Quando tudo é decidido à partida, quando o percurso vem traçado, quando o conforto se transforma em jaula dourada, a pessoa perde o direito ao risco e, com ele, ao crescimento. A felicidade não tolera grades, mesmo quando são feitas de ouro.

A fotografia lembra-nos isto com delicadeza brutal: a liberdade não está no que se possui, mas no que se ousa. Sopramos bolhas sabendo que vão rebentar. Ainda assim, sopramos. Porque nesse gesto reside uma forma discreta de resistência. E talvez seja isso que nos salva. Não o ponto de partida, mas a capacidade de, apesar de tudo, continuar a soprar.

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