Onde me mandaram ficar, não fiquei

 

Afinal, o mundo não é para quem obedece, é para quem insiste

A placa é piedosa na forma e vingativa no conteúdo, uma espécie de oração com ferrugem nas margens, daquelas que se dizem com as mãos erguidas mas os dentes semicerrados. Não me choca. Sempre preferi a honestidade brutal das palavras que não se escondem atrás de cortinas de falsa humildade.

Peço, com gosto, que Deus dê vida aos meus adversários, mas não para lhes poupar incómodos. Quero-os lúcidos, íntegros, de pé, sem desculpas de saúde nem vaguidades de agenda, a assistir às vitórias que juraram impossíveis. Cresci a ouvir que quem vem do bairro deve saber o seu lugar. Pois bem, o meu lugar é onde chego, não onde me mandam ficar. Em Campinho, aprendi que quem vive apertado aprende cedo a empurrar o mundo com os ombros. E eu, que venho dessas margens, não preciso que me expliquem o valor de cada centímetro conquistado.

Cada voto contra, cada boicote velado, cada sorriso azedo alimenta este motor teimoso que trago no peito. Não quero inimigos mortos, quero plateias vivas. Nada humilha mais o ressentimento do que o êxito de quem ele tentou travar. A glória não está em derrotar fantasmas, está em erguer a cabeça perante quem apostou na nossa queda e, ainda assim, continuar a avançar. Que vivam muito, portanto, e que nunca lhes falte vista na primeira fila. Que vejam cada capítulo, cada superação, cada degrau subido, sem um único minuto de intervalo.

Eu, da minha parte, continuarei a entrar em palco sem pedir licença, como sempre fiz. Não porque me achem merecedor, mas porque aprendi cedo que a vida não dá bilhetes. Dá oportunidades. E oportunidades, como as placas antigas pregadas à parede, não esperam para sempre.

E no fim de tudo, quando as luzes baixarem e cada um regressar ao silêncio das suas certezas, ficará apenas isto: a persistência de quem nunca aceitou o lugar marcado. Sempre ouvi dizer que o mundo recompensa os obedientes, mas a verdade é mais simples e mais antiga, aprendi-a no meu bairro. O mundo abre-se com passos firmes, não com cabeças baixas. É a insistência que agarra portas, que empurra fronteiras, que transforma a distância em chegada.

Por isso, continuarei a avançar, devagar quando for preciso, depressa quando o caminho o permitir. Sem pedir clemência, sem pedir licença. Porque tudo o que vale a pena construir exige este ofício de não desistir. E se o mundo tiver de escolher entre quem espera instruções e quem insiste em caminhar, sei bem em que lista quero estar.

Afinal, se há coisa que a vida me ensinou é isto: não se chega mais longe por obedecer, chega-se mais longe por continuar.

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