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Os dados divulgados pela imprensa nacional, com base na ERSAR e em análises da DECO PROteste, confirmam o que demasiados responsáveis fingem não ver: em Portugal, o preço da água continua a ser uma lotaria territorial, com diferenças difíceis de defender num Estado que se diz coeso e moderno. Há concelhos onde o serviço essencial pesa de forma suportável e outros onde a fatura agride o orçamento das famílias com a delicadeza de um murro administrativo.
Em Albergaria-a-Velha, essa realidade não é nova, nem surpreendente, nem acidental. É persistente. E quando a persistência da desigualdade se cruza com a persistência da inércia política, o resultado deixa de ser mera estatística e passa a ser matéria de responsabilidade pública. A comparação com outros municípios, alguns com encargos significativamente inferiores, mostra que o problema não é a água em si, é a forma como ela é tarifada, gerida e politicamente tolerada.
É por isso que este tema merece ser lido à luz do que já escrevi, com a mesma preocupação e com a mesma exigência cívica. Em Desigualdades tarifárias, análise dos encargos da água, em Do preço da água em Albergaria e do resto que interessa e em No caso dos municípios de Ílhavo, fica claro que este não é um assunto episódico, nem uma indignação de ocasião. É uma linha de pensamento coerente, sustentada no tempo, porque quem pensa a política local com seriedade não muda de princípio ao sabor do boletim do mês.
A Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha não pode continuar a esconder-se atrás da tecnocracia nem da linguagem cinzenta do costume. Tem assento na AdRA e, portanto, tem dever de intervenção, de exigência e de confronto institucional sempre que os interesses dos munícipes sejam onerados sem explicação convincente. Estar na estrutura e não usar a voz é uma forma elegante de cumplicidade. E quando o preço pago pelas famílias é demasiado alto, o silêncio político é sempre mais caro do que qualquer tarifa.
A água é um bem essencial; não é um luxo concelhio, nem um instrumento de resignação municipal, nem um exercício de paciência para quem já tem contas a mais e salários a menos. Se a edilidade quer mesmo defender Albergaria-a-Velha, então comece por defender aquilo que é básico, justo e elementar: uma política tarifária transparente, comparável e menos injusta. Tudo o resto é conversa de balcão para adiar responsabilidades.
Porque há momentos em que governar não é gerir o possível, é enfrentar o óbvio. E o óbvio, neste caso, é que Albergaria-a-Velha não precisa de mais explicações acomodadas. Precisa de coragem política, de memória crítica e de representantes que não aceitem que pagar a água continue a ser, para tantos, uma forma encapotada de injustiça.
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