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O fogo passou. As perguntas ficaram.
Há datas que não deviam precisar de ser lembradas.
16 de setembro de 2024 é uma delas.
Nesse dia, Albergaria-a-Velha viveu um dos episódios mais traumáticos da sua história recente. O fogo avançou com uma violência que ninguém esquecerá facilmente. Famílias assustadas. Populações desalojadas. Habitações ameaçadas. Empresas afetadas. Floresta destruída. Um território ferido.
Eu e a minha família tivemos de abandonar a nossa casa por duas vezes.
Não escrevo, por isso, sobre esta matéria como quem observa uma tragédia através de um ecrã. Vivi, como tantos outros, a angústia de não saber o que aconteceria a seguir.
Mas também não quero transformar essa experiência pessoal numa espécie de salvo-conduto para dizer o que penso.
Quero apenas fazer aquilo que, desde então, tenho procurado fazer: perguntar.
Porque as perguntas continuam a ser necessárias.
E porque passaram dois anos.
Dois anos são tempo suficiente para perguntar
Poucos dias depois da tragédia, falaram-se de apoios, reconstrução, prevenção, reforço de meios, reordenamento florestal, recuperação do território.
Passados meses, as perguntas começaram a ser outras.
Em novembro de 2024, escrevi sobre a plantação de 750 árvores autóctones no Bico do Monte e deixei uma interrogação que continua atual: 750 árvores chegam para responder a milhares de hectares ardidos?
Em janeiro de 2025, quatro meses depois dos incêndios, publiquei um conjunto de perguntas incómodas que exigiam respostas urgentes.
Em fevereiro de 2026, refletia sobre o caso de Orlando Ramalho e as promessas que ficaram pelo caminho.Não eram perguntas para alimentar polémicas.
Eram perguntas sobre prevenção, coordenação, meios, floresta, ordenamento, evacuação, vigilância, alerta às populações, formação e envolvimento da comunidade.
Perguntas concretas.
Duas décadas de experiência política, cívica e jornalística ensinaram-me uma coisa simples: uma democracia saudável não deve ter medo das perguntas. Deve ter medo de deixar de as fazer.
E agora?
Dois anos depois, talvez seja tempo de voltar a perguntar.
Não para procurar culpados pelo que aconteceu.
Mas para perceber se aprendemos alguma coisa com o que aconteceu.
O que mudou, concretamente, no terreno desde 16 de setembro de 2024?
Que áreas ardidas foram efetivamente intervencionadas e com que estratégia?
Existe hoje um plano integrado de reflorestação e reordenamento florestal para o concelho?
Que medidas foram tomadas para reduzir a continuidade do combustível vegetal?
Quantos terrenos foram fiscalizados, limpos ou intervencionados?
Que trabalho foi feito para substituir modelos florestais particularmente vulneráveis por soluções mais diversificadas e resilientes?
As faixas de gestão de combustível estão hoje em melhores condições do que estavam há dois anos?
A vigilância e a deteção precoce foram reforçadas?
O sistema de alerta e comunicação com as populações foi revisto à luz do que aconteceu?
Os planos de evacuação foram atualizados, testados e comunicados às populações?
Foram identificadas as falhas de coordenação ocorridas durante o incêndio e corrigidas?
Que novos meios, equipamentos ou procedimentos existem hoje que não existiam em setembro de 2024?
E, sobretudo, quanto foi efetivamente feito para que um incêndio daquela dimensão não volte a encontrar o mesmo território?
São perguntas simples.
Algumas talvez tenham respostas.
Outras talvez não.
Mas, dois anos depois, já não basta dizer que estão a ser estudadas.
A prevenção não pode depender da memória do fogo
Existe uma espécie de paradoxo nas grandes tragédias.
Enquanto estão vivas na memória, mobilizam pessoas, instituições e meios.
Depois, lentamente, deixam de ocupar o centro da agenda.
As fotografias desaparecem das primeiras páginas. As câmaras de televisão vão embora. Os discursos tornam-se mais raros. A urgência transforma-se em procedimento.
E o território continua ali.
À espera.
É precisamente aqui que reside a minha preocupação.
O tempo pode ser um aliado da recuperação, mas também pode ser um excelente aliado do esquecimento.
E o esquecimento, quando aplicado à prevenção, pode sair-nos muito caro.
Não quero que Albergaria-a-Velha volte a descobrir a importância da prevenção quando as chamas já estiverem a aproximar-se das casas.
Não quero que voltemos a discutir meios de combate quando o fogo já estiver instalado.
Não quero que a reconstrução seja novamente apresentada como prioridade depois de a destruição acontecer.
A prevenção tem uma característica pouco simpática para a política: não produz grandes fotografias.
Uma limpeza feita antes do incêndio raramente merece uma conferência de imprensa.
Uma faixa de gestão de combustível em condições não dá manchetes.
Uma floresta melhor ordenada não aparece nas televisões com a mesma intensidade de uma coluna de fumo.
Mas é precisamente aí que se mede a qualidade das políticas públicas.
Não procuro respostas perfeitas. Procuro respostas.
Há dois anos, escrevi que mais vale pecar por ação do que por omissão.
Continuo a pensar exatamente o mesmo.
Não espero que um concelho fique imune aos incêndios.
Não acredito em promessas de risco zero.
Não ignoro as alterações climáticas, as condições meteorológicas extremas ou a dimensão do problema florestal português.
Mas recuso a ideia de que nada possa ser feito.
Pode.
Deve.
E tem de ser feito antes da próxima emergência.
Por isso, esta não é uma acusação.
É um alerta.
É também um exercício de memória.
E, sobretudo, é um convite ao escrutínio de todos nós.
Para não voltarmos ao princípio
Dois anos depois, talvez seja altura de deixar de perguntar apenas o que aconteceu.
A pergunta verdadeiramente importante é outra:
o que fizemos, desde então, para que não volte a acontecer da mesma maneira?
Se existe um plano, importa conhecê-lo.
Se existem medidas, importa saber quais.
Se existem resultados, importa mostrá-los.
Se existem atrasos, importa explicá-los.
Se existem dificuldades, importa assumi-las.
Porque uma população informada não precisa de promessas tranquilizadoras.
Precisa de saber onde está, para onde vai e o que está a ser feito para a proteger.
Dois anos depois, não peço alarmismo.
Peço prevenção.
Não peço caça às bruxas.
Peço responsabilidade.
Não peço respostas políticas feitas para as manchetes.
Peço respostas que possam ser confirmadas no terreno.
O fogo passou.
A memória não pode passar com ele.
E talvez a melhor homenagem às pessoas que viveram aquele dia não seja recordar o incêndio todos os anos.
Seja garantir que, entre um aniversário e o seguinte, alguém fez alguma coisa para que o próximo seja diferente.
16 de setembro 2024
Incêndios Albergaria-a-Velha
memória
ordenamento do território
Orlando Ramalho
prevenção florestal
proteção civil
reconstrução
responsabilização política
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