O Tempo não usa anestesia: cicatrizes e coragem em dias maus

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Deixar o Tempo operar exige uma coragem silenciosa, quase subversiva. No mundo das urgências e das impaciências, esperar que as horas lavem feridas, enquanto suportamos as dores sem anestesia, é um ato quase revolucionário. Não é fuga, é enfrentamento.


O Tempo não é indulgente: passa pelos ossos e pela alma, impiedoso, contornando as armadilhas, as maldades e as sabotagens de quem joga rasteiro na vida.


A quem confia no poder curativo dos dias, o Tempo não promete distração nem alívio fácil. Promete processo gradual, feito de noites mal dormidas, perguntas sem resposta e silêncios desconfortáveis. Só depois, eventualmente, chega a trégua: as mágoas tornam-se memórias, as traições perdem veneno, as cicatrizes deixam de latejar.


O Tempo não apaga, mas ensina. Não suaviza, mas fortalece. E, acima de tudo, só cura quem tem a ousadia de não se proteger da própria humanidade, quem aceita atravessar a dor para, finalmente, voltar a sentir o sabor da esperança.


Quando tudo parece conspiração e desalento, confiar no Tempo é reivindicar a possibilidade de recomeço. E esse recomeço, ainda que solitário e sem promessas, é a maior ousadia de quem recusa deixar-se vencer pelo que foi. E escolhe continuar, apesar de tudo.

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