O que fiz do que me fizeram

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Há feridas que não sangram, mas moldam. Sartre perguntaria: o que fizeste daquilo que te fizeram? Talvez tenha transformado a dor em lucidez, a frustração em ética, a impotência em palavra.


Serei o resultado das vezes em que fui ignorado, desvalorizado, posto à prova. E ainda assim escolhi continuar. Não por ingenuidade, mas por teimosia moral.


Carrego no olhar o peso dos que sabem demais, e nas mãos a leveza dos que ainda acreditam que vale a pena resistir.


Cada golpe ensinou-me a erguer muralhas com dignidade e janelas com esperança. Fizeram-me cético. Tornei-me exigente.


Tentaram calar-me, respondi com textos e consciência. Tentaram quebrar-me, aprendi a dobrar-me sem partir. No fundo, fiz arte do que era ruína, sentido do que era dor.


E, talvez sem dar por isso, reinventei-me: não em quem me feriu, mas em quem se recusou (a) ferir-me.

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