Os olhos secos também choram: a epifania do sorriso fingido

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"Agora não. Talvez daqui a uma hora, amanhã, depois de amanhã, mais tarde, mas agora não. Agora aguenta-te, finge que és forte, sorri ou, pelo menos, puxa os cantos da boca para cima: se mantiveres os olhos secos vão pensar que é um sorriso."

António Lobo Antunes

in Visão


Há momentos em que a alma se imobiliza no limiar da dor, interditando lágrimas e silenciando gritos.

O mundo exige força, mas apenas nos entrega o palco onde encenamos resiliências. Sob a pele, o sofrimento constrói trincheiras, disfarçadas por sorrisos contrafeitos.

Fingir é sobreviver: não porque se é forte, mas porque as exigências da vida não oferecem intervalo.

O olhar de uma criança, de cabelo desgrenhado e roupa singela, ensina que a coragem, por vezes, se resume ao gesto mínimo de erguer os cantos da boca, enquanto, dentro, se sonha um amanhã menos pesado.

A verdadeira fortaleza revela‑se, porventura, na vulnerabilidade escondida, aquela que quase ninguém vê, mas todos conhecem secretamente.

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