O medo de desagradar


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A epidemia da simpatia artificial

Vivemos no tempo do sorriso obrigatório, da concordância automática, do aplauso preventivo. Desagradar tornou‑se pecado social, quase heresia. Prefere‑se o silêncio cúmplice à palavra incómoda, prefere‑se o “talvez” ao “não”. O conflito assusta, a frontalidade incomoda, a verdade cria anticorpos.

Zygmunt Bauman descreveu uma modernidade líquida, feita de relações frágeis, compromissos descartáveis, laços que se desfazem ao primeiro incómodo. E nós adaptámo‑nos. Suavizámos o discurso, arredondámos as arestas, polimos a crítica até ela deixar de cortar. Nas instituições ouve‑se muito: vamos analisar, vamos ponderar, vamos ver. Quase nunca se ouve: não concordo, está errado, assim não.

Temos medo de perder simpatias, de ficar mal na fotografia, de ser rotulados. Mas a simpatia permanente é uma ditadura silenciosa: obriga‑nos a representar, a ensaiar gestos, a medir cada palavra. A diplomacia excessiva não resolve conflitos, adia‑os. E o que se adia, acumula‑se. E o que se acumula, explode!

Dizer não não é agressão, é clareza. Discordar não é hostilidade, é respeito pelo outro enquanto interlocutor adulto. Quando evitamos desagradar a todo o custo, acabamos por desagradar à verdade. E uma sociedade que troca a honestidade pela cordialidade artificial torna‑se confortável, mas oca.

Talvez esteja na hora de recuperar a coragem simples: olhar nos olhos, assumir posições, aceitar consequências. Nem todos vão gostar, ainda bem. Porque a unanimidade é suspeita. E a liberdade começa, muitas vezes, no desconforto de um não.



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