Praça Alameda 5 de Outubro: o debate não é sobre um coreto, é sobre uma visão para a cidade

A notícia da eventual demolição do coreto da Alameda 5 de Outubro, no âmbito do projeto de reabilitação e ampliação da antiga estação ferroviária, reabriu um debate que, no meu caso, está longe de ser recente. Há mais de uma década que escrevo, reflito e intervenho sobre aquele que considero ser o principal espaço cívico de Albergaria-a-Velha.

Importa, por isso, esclarecer desde já um ponto: não me movem nostalgias acríticas nem qualquer oposição de princípio à eventual demolição do coreto. O que verdadeiramente importa não é a preservação de um elemento isolado, mas sim a qualidade da visão urbanística, paisagística e funcional que se pretende construir para aquele espaço central da cidade.

Um espaço que transcende a sua materialidade

Ao longo dos anos, a minha reflexão sobre a Alameda tem sido marcada por uma ideia constante: a praça não deve ser entendida apenas como um vazio urbano delimitado por edifícios ou equipamentos.

Uma praça é um lugar de encontro, de representação coletiva e de construção de identidade. É um espaço onde se cruzam percursos, memórias, vivências e relações sociais. É, por definição, um elemento estruturante da paisagem urbana.

Foi nessa perspectiva que escrevi textos como:

🔗 Crónica publicada no Jornal Correio de Albergaria (2012)

🔗 Artigo de opinião Praça Alameda 5 de de outubro - uma escolha para gerações" (2013)

🔗 Obras na Alameda: uma história incompleta (2014)

🔗 Sobre as obras de regeneração urbana do centro de Albergaria-a-Velha (2015)

🔗 Uma das nossas principais salas de estar parece ter sido abandonada à sua sorte (2016)

🔗 A praça adormecida numa cidade adormecida (2016)

Lidos em sequência, estes textos permitem concluir que o essencial do meu pensamento permaneceu inalterado: a Alameda necessita de um projeto que vá muito para além das intervenções pontuais ou das soluções circunstanciais.

A questão central não é conservar ou demolir

Reduzir a discussão ao destino do coreto seria empobrecer o debate.

O verdadeiro desafio consiste em perguntar que papel deverá desempenhar a Praça Alameda 5 de Outubro na organização urbana futura de Albergaria-a-Velha.

Pretende-se um espaço meramente atravessado por pessoas? Ou um espaço vivido?

Pretende-se uma praça contemplativa? Ou uma praça capaz de acolher programação cultural, dinamização económica, permanência, encontro intergeracional e apropriação quotidiana pelos cidadãos?

São questões desta natureza que devem enquadrar qualquer decisão relativa ao coreto, à antiga estação ferroviária ou aos elementos que possam vir a ser introduzidos, relocalizados ou removidos.

Se o coreto constitui um obstáculo físico à concretização de uma solução global de maior qualidade arquitetónica, urbanística e paisagística, não vejo razão para que a sua permanência se transforme num dogma.

Mas também não creio que a sua eliminação possa ser decidida apenas por razões funcionais ou decorrentes de uma oportunidade de financiamento.

Planeamento integrado e desenho urbano de qualidade

O que a Alameda sempre precisou foi de uma visão integrada.

Uma visão que articule o edifício da antiga estação ferroviária, a praça, o Cineteatro Alba, o Tribunal, os Paços do Concelho, os percursos pedonais, os espaços de estadia, os eventos culturais, o comércio local e a restante malha urbana envolvente.

Em termos de ordenamento urbano, o mais importante não é cada elemento individualmente considerado, mas antes a forma como todos eles contribuem para a legibilidade do espaço, para a sua coerência formal e para a qualidade da experiência urbana.

O espaço público deve ser concebido como um sistema.

Um sistema onde a arquitetura, o património, a arborização, os percursos, o mobiliário urbano, as zonas de permanência e as funções instaladas estabelecem relações harmoniosas e complementares.

É nessa articulação que nasce o chamado "sentido de lugar". E é precisamente esse sentido de lugar que continua a faltar consolidar na principal praça da cidade.

Participar para criar pertença

Tão importante como a solução técnica é o processo que conduz à sua definição.

Tenho defendido, desde os primeiros debates sobre a regeneração urbana da Alameda, que decisões com este impacto deveriam ser amplamente discutidas, explicadas e participadas.

Não apenas por formalidade.

Mas porque os cidadãos tendem a proteger, valorizar e apropriar-se dos espaços que ajudaram a imaginar.

Quando as populações são chamadas a refletir sobre os destinos do seu património urbano, cria-se uma ligação emocional e cívica entre as pessoas e o território. Gera-se um sentimento de pertença que nenhuma obra, por mais cara ou sofisticada que seja, consegue produzir por decreto.

A qualidade de uma praça não se mede apenas pelos materiais utilizados ou pela assinatura do projetista.

Mede-se também pela relação que os cidadãos estabelecem com ela.

O futuro merece um debate à altura

A candidatura agora anunciada pode representar uma oportunidade relevante para corrigir fragilidades antigas e valorizar uma zona particularmente sensível do centro urbano.

Por isso, mais importante do que discutir se o coreto fica ou sai, importa conhecer a visão global que sustenta essa decisão.

Qual será a imagem futura da Alameda?

Que usos se pretendem estimular?

Que papel desempenhará o património ferroviário recuperado?

Como se compatibilizarão memória, funcionalidade, estética e vivência urbana?

São estas perguntas que verdadeiramente interessam.

Quanto ao coreto, a minha posição é simples: não o considero intocável. Poderá até fazer sentido a sua remoção, desde que esta resulte de uma estratégia coerente, amplamente debatida e capaz de elevar a qualidade urbana, paisagística e cívica da Praça Alameda 5 de Outubro.

Porque, no fim de contas, o que está em causa não é um coreto.

É a relação entre uma cidade e o seu coração.

Comentários